Primeira entrada em um diário (06.10.2006)

Hoje me dei conta de algo que merece ser nomeado, mais por prudência do que por ciência, e por isso mesmo penso saber que, finda a tentativa, nada terá sido efetivamente nomeado.

 

O dia, como os tantos anteriores (incontáveis?), transcorreu vagaroso, e, como sempre, a sucessão de ônibus seguiu rigorosamente seu ritmo usual. Passaram pessoas, um ou outro cachorro, talvez um gato. Senti como sempre um pouco de frio – não o suficiente para me fazer subir num ônibus ou entrar na padaria –, como sempre. Não senti fome novamente, e isso ainda me surpreende. Tenho cinco pães e meio e um pacote branco que creio que contém algum tipo de doce, mas já não me lembro direito. Além disso, tenho uma embalagem vazia de alguma comida, algum tipo de salgado, talvez, que, por pura inferência, penso ter comido no primeiro dia. Pela lógica, o doce já estaria estragado, mas como não sinto fome, não durmo e nunca sinto frio suficiente para decidir sair – não acho que isso seja de fato possível –, a deterioração do doce me parece improvável, a não ser que ele esteja submetido a leis outras que não aquelas a que eu estou submetida. No céu como na terra, no entanto, e penso que o doce está intacto. Talvez se eu tivesse uma faca…

 

No primeiro dia, maldisse meu esquecimento. Estava um pouco frio e a princípio me senti ligeiramente incomodada etc. À medida que o tempo foi passando, no entanto, embora nada ou muito pouco tenha mudado – os transeuntes me cumprimentam como se a situação fosse temporária –, meu cárcere em liberdade tem me proporcionado uma espécie muito peculiar de entendimento (é essa a palavra?) sobre determinadas coisas – e, claro, também uma série de surpresas monótonas, por assim dizer: de constatações a médio ou longo prazo que não fazem sentido dentro de nenhuma lógica que eu conheça. Não durmo, não como, e o degrau da soleira é inconcebivelmente confortável, igualmente confortável dia após dia.

 

Hoje, no entanto, algo mudou: um entregador de esfihas estacionou a moto logo em frente e tocou a campainha ao meu lado. Disse-lhe que o endereço estava errado e que não havia ninguém na casa (se houvesse, pensei sem muita convicção, eu já haveria entrado). Indiquei minuciosamente o local correto e ele se foi. Só então se deu a coisa.

 

Há alguém na casa. Não me dei subitamente conta disso: eu já sabia. Desde sempre. Muitas vezes encostei a cabeça na porta e procurei divisar, por entre os ruídos dos carros e dos ônibus na rua, algum som, indício de ocupação humana, vindo do interior da casa. Nunca ouvi nada conclusivo, mas sempre soube que o silêncio era um silêncio cúmplice: alguém lá dentro espera também, também encarcerado, e nos compreendemos no nosso silêncio mútuo. Mesmo o fato desta pessoa não ter vindo atender o chamado do entregador equivocado era claramente uma espécie de piscadela. Alguém está ali, alguém que também me espreita: sinto algo de vital saindo das frestas.

 

Pergunto-me o que faria caso um dia escutasse algum som conclusivo, como batidas com um intuito claro de comunicação. Bateria em resposta? Pediria desesperada para que abrisse a porta? Olharia por uma das frestas tentando divisar no escuro alguma movimentação humana? Provavelmente não. Esperaria, talvez, até que fosse retomada nossa forma sutil de comunicação. Entrar na casa seria muito pouco natural.

 

Lembro-me sempre de um já velho conto argentino (refiro-me agora, não para minha surpresa, à literatura argentina como alguém que nunca tivesse esquecido a chave talvez se referisse à russa; contos tradicionais, de fadas) e me sinto um pouco como uma Irene muito às avessas. Temos a mesma certeza: há alguém do outro lado. Mas Irene e seu irmão fogem, trancam, enclausuram o horror: no meu caso, eu estou presa. Não me cabe decidir sobre a abertura da porta. Mas há alguém do outro lado, e talvez por isso o frio nunca etc. e o doce etc.

 

Mas me ocorreu: se eu, e não o entregador de esfihas, tivesse tocado a campainha, talvez ela (ele?) viesse. A porta se abriria e eu, embora não entrasse, creio, estaria livre. Ou, por outra, como está escrito em todas as gramáticas e constituições, ninguém viesse e de fato não houvesse ninguém do outro lado. E aí me restaria ir embora, ou comer pão puro, ou abrir o doce mesmo sem faca. Estaria, também, livre. Mas há.

 

A necessidade de confirmação, no entanto, me impelia, pois era uma resolução e uma resolução bem-vinda apesar de eu não sentir fome etc. Levantei-me, encostei o dedo no botão, mas não o pressionei de imediato. Deixei-o estar apenas apoiado e senti que aquilo de vital que as frestas exalam se intensificava enormemente. Vi – vi – a pessoa atrás da porta, espreitando-me de uma fresta ou pelo olho-mágico, esperando apenas que eu aumentasse ligeiramente a pressão para… matar-me, tive certeza. Vi o punhal. Vi a tensão nos músculos. Vi olhos vidrados, jubilosos da realização heróica prestes a se consumar. Vi seu regozijo, intensificado pela longa espera.

 

Então compreendi. Afastei-me, a tensão voltou para o nível normal e os ônibus, que só haviam parado de passar talvez na minha – e na sua? – compreensão, retomaram sua marcha.

 

Agora chove. Mas não o suficiente etc.

Advertisement

1 Comment

Filed under Contos

One Response to Primeira entrada em um diário (06.10.2006)

  1. Olá, Luiza, bom-dia!
    Que tudo esteja 100% com você!
    Encontrei o seu blog através do Stoa-USP, e vim fazer uma visitinha!
    Adorei, a crônica. Fui lendo e imagando… ao final, dela, senti a chuva caindo.

    Sou expatriada; quer dizer: sai do Brasil em 2000 e fui para os USA estudar na Harvard, onde estudei até 2002. Desde 2003, moro na Holanda – sou casada com um holandês.

    [O choque cultural existe e acaba sendo benéfico - de uma maneira ou de outra -. Sou da opinão que existem coisas boas e ruins em qualquer lugar do planeta! Nós é que temos que ressignificá-las à nossa moda!]

    Será uma honra se quiser ler o prefácio do meu livro: Mevrouw Jane. Este é o link, caso queira lê-lo: http://josanemary.wordpress.com/mevrouw-jane

    O prefácio não foi feito por mim, mas por um outro escritor: José Augusto Carvalho, que é Mestre em Linguística pela Unicamp, e Doutor em Letras [pela sua universidade], USP.

    O meu livro será lançado aí no Brasil no próximo junho.

    Se gostar – ou não – por favor, deixem um comentário. Vou adorar ler a opinião dos senhores!

    Tenham um ótimo dia!
    Grande abraço.
    Josane Mary

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Connecting to %s