Uma Noite (3ª versão) (2002)

Subo as escadas de minha casa com um misto de alívio e pressa. Um espelho no corredor revela, de relance, minha imagem. Passo despercebido para mim mesmo. Finalmente as coisas deram certo na empresa, agora a situação vai melhorar, não vamos ter que vender a casa. No quarto, minha mulher pinta um quadro, um vaso azul começa a surgir por entre os borrões. O negócio com o seu Mário deu certo, querida, nossa vida vai mudar. O futuro do Júnior está garantido. Ela se levantou e me abraçou. Júnior estava deitado em seu bercinho. Entrei no banheiro para tomar banho, um banho demorado e merecido, cheiro de xampu no ar. Saio da ducha, olho no espelho e arranco um fio de cabelo branco que me aparece entre meus cabelos molhados. Não tenho mais preocupações. Saio do banheiro; minha esposa, sentada na cama, dá de mamar para minha filha. Onde está Júnior? Lá no quarto, jogando video-game. Abro o armário, abrem-se gavetas à minha frente, onde estão os pijamas? Ternos e gravatas impedem-me a visão, lá está ele, na última gaveta, o pijama. Visto o pijama e volto ao banheiro. O cheiro de xampu ainda paira no ar, penteio meus cabelos. Já não me preocupo em arrancar os fios brancos, são muitos, observo rugas começando a surgir. Passo desodorante e saio do banheiro. Ando pelo corredor, lá está o vaso azul que minha mulher pintou há algum tempo. Ele passa despercebido. E lá está minha mulher, no quarto da Júlia, colocando o pijama nela. Quem diria, já, já, vira uma mocinha, é o que minha esposa diz e eu furtivamente ouço. Meu filho está trancado no quarto e um som de guitarra atravessa as paredes. Ando até a sala, sento-me na minha poltrona favorita e pego o jornal do dia, algumas páginas depois minha esposa senta-se no sofá, perto de mim, e diz algo sobre como os meninos cresceram, que me interessa menos do que as notícias que leio. Minha filha passa fazendo barulho com os saltos das sandálias plataforma no chão e mascando chiclete, meu filho passa e pega a chave do seu carro dizendo que vai levar a irmã a algum lugar, danceteria, acho que ouvi. Minha esposa liga a televisão e se emociona com a novela, não consigo me concentrar no jornal e vou até a cozinha. Minhas pernas já não são tão firmes quanto antes. Abro o armário e procuro meus remédios, apertando a vista para diferenciá-los dos de minha esposa, inúmeros frascos. Sete cápsulas depois, meu filho sai pela porta da cozinha de mãos dadas com a namorada e uma mala na mão, vão casar, que bom. No caminho de volta à sala, minha filha passa vestida sobriamente, vou para uma entrevista de trabalho, diz ela. Viro à esquerda no corredor. Aquele velho quadro do vaso azul continua lá, nunca foi muito bonito, penso eu. Ando lentamente até meu quarto e procuro pelos meus chinelos, ajoelho-me no chão com dificuldade, dobro as costas que rangem e encontro o que procurava embaixo da cama. Apoio-me nela pesadamente, calço os chinelos e arrasto os pés em direção à sala, no corredor minha filha passa por mim com uma grande mochila nas costas, me dá um beijo rápido e sai. Um rapaz a espera na porta. Vão casar, que bom. Penso que ficaremos sozinhos, eu e minha esposa. Paro em frente ao espelho do corredor, observo-me com cuidado, cada ruga, os cabelos que ainda me restam, a postura curvada. Olho para minhas mãos, minha pele parece papel fino. Continuo meu caminho, chego na sala e minha esposa está imóvel, a novela acabou. Sento-me ao lado dela, está fria, está fria e dura, está morta. Sinto que ficarei sozinho. De que importa? O tempo passou rápido e vai passar rápido. Caminho, apoiado em minha bengala, até o telefone; ligo para o IML, eles dizem que logo chegarão. Vou com dificuldades até o quarto para colocar um casaco, no corredor o apoio da bengala não me é suficiente, apóio uma das mãos na parede mas acabo por bater num quadro, no velho quadro do vaso azul. Caio no chão e uma dor percorre o interior dos meus ossos, olho para cima e no mais completo silêncio está o quadro vindo de encontro à minha cabeça; sinto o baque. De que importa? O tempo passa rápido.

Minha cabeça sangra e agora tudo está mais calmo.

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1 Comment

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One Response to Uma Noite (3ª versão) (2002)

  1. Renan

    Acabei de ler esse conto e achei fantástico. A maneira como a velocidade do tempo vai aumentando aos poucos é muito legal.
    Parabéns.
    Moro em Osasco, fiz alguns contos, o Afogado e o Pequim. Qualquer dia desses eu te mostro.
    Beijão!

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