Poetas (setembro de 2006)

Margarida! Margarida!

Banhou-se toda em luar…

Lembro-me bem. A ponte era comprida,

E o pranto lento deslizando em fio…

E, dentro do luar,

Pensamentos de vida formulados,

Toda a recordação do que ficava atrás!

E na verde ironia ondulosa do espelho

Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,

            A voz do mar.

Um olhar breve – e vão

Que defende a entrada de seu fojo.

Hora de dormir – dormir!

Os olhos a fitar a noite infinda.

Eu quero ver outra luz

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Graças ao seu préstimo avisto

Tão simples, tão certa, tão fácil:

Criança germinando dentro da noite.

Olhar o mundo, o espaço iluminado,

Inutilmente na luz perpendicular.

Depois de ouvir-lhe o segredo

Hão de morrer as cantigas;

E é ridículo das amor a alguém que amanhã estará surdo.

Pois nem o vento, nada te abandona.

Que dor de coração me dava

Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!

Ferido de mortal beleza.

– É meu braço que treme ou teu braço que treme?

Do outro lado tem outras vidas vivendo de minha vida

Num ímpeto de secreta fraternidade.

Meu amor me ensinou a ser simples

E sobre o mar me atirou.

Sinto bater em cadência

Este lameto

Bolhas e pingos verdes;

É namorada do mar.

Por isso temos braços longos para os adeuses

E vimos que entre nós nascia um sul

De asas de nuvem. Um rio

Confiante e confidente.

Não faz mal que amanheça devagar,

Assim prenhe de rosas, te quero,

Somos um só. Nela eu vivo e ela em mim,

De quase nada:

Gesto de desespero e despedida,

Banhado em velhos sais e maresias,

O sal e a palha da ternura humana.

Dá-me forças, Coração de Nuvem,

Sua vida fechada

É o meu passado.

Palavras… Palavras… Palavras…

Há mulheres que dizem:

O poeta mal fala e as pessoas já abrem a boca em fastio

            – A farsa

Do que em nós faz o amor, em vão tecemos

De uma praia a outra

E isto já basta… O sol brilhará,

Ante o que se deseja e se pressente.

A pele de um animal separada do corpo:

A mulher magra

Dançou: cruzou com uma bala…

Também é feita de deixar de ser,

Conhecerás a esperança.

Com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores

De sóis e luas.

Mas dentro de mim,

Para além da estrela remota

Teu coração é um labirinto de palavras

Seus olhos também no horizonte do mar e da montanha

Se levantaram cantando

Como aqueles que amam.

E de manhã, na hora do encontro

Que te aguarda sob os galhos.

A manhã, toldo de um tecido aéreo

Ficou sendo um brinquedo de criança

A roçar a porta do sono

Numa escala de formiga, que as montanhas atraem.

Jogou-se contra um mar de sofrimentos

Sua grandeza inconsciente;

Seu corpo feito de nuvens

Estando

Não existe

Nuvens brancas

Azuladas nas samambaias.

E o que respirávamos se chamava manhã

Que é meta de claridade

Nos dois olhos

A abrir-se dentro da sombra;

Já podemos ir embora!

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