Margarida! Margarida!
Banhou-se toda em luar…
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E o pranto lento deslizando em fio…
E, dentro do luar,
Pensamentos de vida formulados,
Toda a recordação do que ficava atrás!
E na verde ironia ondulosa do espelho
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
A voz do mar.
Um olhar breve – e vão
Que defende a entrada de seu fojo.
Hora de dormir – dormir!
Os olhos a fitar a noite infinda.
Eu quero ver outra luz
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Graças ao seu préstimo avisto
Tão simples, tão certa, tão fácil:
Criança germinando dentro da noite.
Olhar o mundo, o espaço iluminado,
Inutilmente na luz perpendicular.
Depois de ouvir-lhe o segredo
Hão de morrer as cantigas;
E é ridículo das amor a alguém que amanhã estará surdo.
Pois nem o vento, nada te abandona.
Que dor de coração me dava
Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!
Ferido de mortal beleza.
– É meu braço que treme ou teu braço que treme?
Do outro lado tem outras vidas vivendo de minha vida
Num ímpeto de secreta fraternidade.
Meu amor me ensinou a ser simples
E sobre o mar me atirou.
Sinto bater em cadência
Este lameto
Bolhas e pingos verdes;
É namorada do mar.
Por isso temos braços longos para os adeuses
E vimos que entre nós nascia um sul
De asas de nuvem. Um rio
Confiante e confidente.
Não faz mal que amanheça devagar,
Assim prenhe de rosas, te quero,
Somos um só. Nela eu vivo e ela em mim,
De quase nada:
Gesto de desespero e despedida,
Banhado em velhos sais e maresias,
O sal e a palha da ternura humana.
Dá-me forças, Coração de Nuvem,
Sua vida fechada
É o meu passado.
Palavras… Palavras… Palavras…
Há mulheres que dizem:
O poeta mal fala e as pessoas já abrem a boca em fastio
– A farsa
Do que em nós faz o amor, em vão tecemos
De uma praia a outra
E isto já basta… O sol brilhará,
Ante o que se deseja e se pressente.
A pele de um animal separada do corpo:
A mulher magra
Dançou: cruzou com uma bala…
Também é feita de deixar de ser,
Conhecerás a esperança.
Com um embornal de pinceizinhos e uma paleta de cores
De sóis e luas.
Mas dentro de mim,
Para além da estrela remota
Teu coração é um labirinto de palavras
Seus olhos também no horizonte do mar e da montanha
Se levantaram cantando
Como aqueles que amam.
E de manhã, na hora do encontro
Que te aguarda sob os galhos.
A manhã, toldo de um tecido aéreo
Ficou sendo um brinquedo de criança
A roçar a porta do sono
Numa escala de formiga, que as montanhas atraem.
Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Sua grandeza inconsciente;
Seu corpo feito de nuvens
Estando
Não existe
Nuvens brancas
Azuladas nas samambaias.
E o que respirávamos se chamava manhã
Que é meta de claridade
Nos dois olhos
A abrir-se dentro da sombra;
Já podemos ir embora!